Kibbutz: colônia, settlement, acampamento, lugar eleito onde erguer a barraca final, onde receber o ar da noite com a cara lavada pelo tempo, para unir-se ao mundo, à Grande Loucura, à Imensa Burrice, abrir-se à cristalização do desejo, ao encontro. (Julio Cortázar)
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19.11.06
Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
Vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
Pra me livrarem
Do meu atraso de vida
Eu já devia ter rasgado
E não podia
Esse retrato cujo olhar
Me maltratava e perseguia
Um dia veio o lanceiro
Naquele aperto da praça
Vinte e cinco
Francamente, foi de graça
(Paulo Vanzolini, Praça Clóvis)
Gênio.
15:10
30.9.06
a segunda vinda
Eu mato blogs. E eu os ressuscito.
01:01
22.5.06
a quem interessar
Este blog bateu as botas, vestiu o paletó de madeira, virou comida de formiga, morreu. Mas eu tenho outro agora. Quem quiser vê-lo, deve entrar aqui. É isso.
16:00
21.9.05
let's face it
Um espectro ronda meus planos de ir ao Tim Festival este ano - o espectro da grana curta. É triste, mas o cenário que se desenha, dia a dia, vai tendendo para a minha NÃO-PRESENÇA ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro na noite do dia 22 de outubro, quando o Wilco, esta banda genial que tem dois discos INTEIROS na trilha sonora de minha existência - o Yankee Hotel Foxtrot (2002) e o A Ghost is Born (2004) -, sem contar os inacreditáveis A.M., Being There e Summerteeth, fará a sua única apresentação na sudamerica. É mais do que triste, desolador. Este tem sido um ano incrível em relação a shows fodões e mais está por vir em novembro, quando o Claro q é Rock, certamente, vai cair matando. Mas o Wilco era prioridade máxima. E Deus, como eu adoraria voltar tão rápido ao Rio. Acontece que eu quero e preciso fazer umas coisas com a minha vida, e pra boa parte delas eu preciso de dinheiro. Uma viagem de dois dias a um custo total de uns R$ 800 me deixaria necessariamente despossuído por um bom tempo. Pondo na balança, a conclusão é de que a extravagância não valeria à pena. Mas não prometo não derramar lágrimas ao ver, pela TV, Jeff Tweedy cantar carvõezinhos lapidados como Jesus, etc ou Ashes of American flags ou Hell is Chrome ou... Bah, vamos parar por aqui (suspiro resignado).
13:18
20.9.05
Pé na porta, soco na cara
É impressão minha ou o fenômeno "saí-da-independência-e-ganhei-as-massas" encontrou no Matanza sua mais recente manifestação? Posso estar chegando atrasado, mas só agora há pouco (não mais do que 15 minutos, pra ser exato) acordei para esta conclusão. Estava ali numa livraria do centro roubando uns minutos do patrão quando começou a tocar Ela roubou meu caminhão no rádio. Uau, no rádio? Mas a surpresa não parou aí: no recinto, lotado de estudantes secundaristas de - veja bem - escola pública, um sentimento geral de "Ah, aquela música legal" subiu de repente no ar aos primeiros acordes deste verdadeiro libelo sobre a sinuca-de-bico sentimental a que está submetido o homem moderno. Cabecinhas teenagers balançando, palminhas e air guitar foram testemunhados por este estupefato SENHOR DE MEIA IDADE. Que achou lindo, claro.
Pode parecer agora papo de comentarista de futebol dizendo "Eu não disse?" depois de um gol que acaba de sair (sendo que o desgraçado não disse porra nenhuma, quer apenas posar de sabichão pra justificar o salário que ganha pra tomar whisky importado e comer amendoim joãoponês), mas o fato é que desde que vi e ouvi os "cowboys from hell" pela primeira vez na MTV, e mais ainda depois que testemunhei os bastardos ao vivo no Abril Pro Rock deste ano, senti ali o gostinho, me perdoem a falta de comparação melhor, de um novo Raimundos: uma banda independente de roque duro e safado, com um tempero diferencial que teria tudo pra ganhar o povão (no caso dos Raimundos, elementos da cultura nordestina; no do Matanza, a influência do country-de-raiz caindo como uma luva imunda na cultura-de-caminhoneiro tipicamente brasileira). Mês que vem eles estão excursionando pelo nordeste, e essa experiência de hoje à tarde só me deu mais vontade de vê-los tocando em Aracaju. *Arrôut!*
16:58
18.9.05
Aquele abraço
(parte 8 de 8)
No meu último dia no Rio de Janeiro, acordei feliz como um moleque. Queria aproveitar bem as horas derradeiras na cidade maravilhosa. Duas palavras ocupavam meus pensamentos: SANTA TERESA. Esse pacato, nostálgico e boêmio bairro do velho centro do Rio é um dos meus lugares preferidos de todos os tempos. Não podia estar no Rio de Janeiro e deixar de ir lá. E tanto falei sobre Santa Teresa a semana inteira que Pinheiro e Everton estavam sedentos de curiosidade pra conhecê-lo e toparam me acompanhar. Pra não perder tempo, decidimos almoçar por lá e passar a tarde no bairro; o dia estava impecavelmente ensolarado de novo, convidando a uma caminhada.
No ônibus que nos levaria até lá, acabamos fazendo um city-tour por bairros importantes que a gente não tinha conseguido visitar: passamos perto da Urca, cruzamos toda a praia de Botafogo e a do Flamengo, mais a Glória, até chegar à Lapa, onde descemos. Andamos um pouco por ali, bem embaixo dos arcos da Lapa, histórico reduto boêmio recém-descoberto pela juventude carioca. Mas o que a gente queria mesmo era passar POR CIMA dos arcos - é por ali que, desde o século XIX, se vai de bonde pra Santa Teresa, ali no alto.
O bondinho de Santa Teresa mereceria um capítulo à parte em qualquer estudo sociológico sobre o bairro. Precário e charmoso, nobre e esquecido, alegre e irredutível, ele é a cara daquele lugar. E é ali que Santa Teresa se mostra com tudo que tem de melhor: a informalidade, a camaradagem, a simpatia. No pequeno bonde sempre cabe mais um, é fácil engatar num bate-papo com quem está do seu lado, o lugar da parada é sempre negociável - basta falar com o piloto - e é tacitamente aceito pegá-lo sem pagar nada, desde que você o pegue andando. É fácil entender ali a expressão "estamos todos no mesmo bonde": parece que esse meio de transporte estimula a união e congraçamento entre as pessoas - o que, como eu disse, é uma das melhores coisas de Santa Teresa, um bairro maravilhoso mas sem o nariz empinado de uma Ipanema ou Copacabana, por exemplo.
Descemos do bondinho numa das ruas estreitas de Santa Teresa e almoçamos bem num sobrado-restaurante muito simpático com vista para a baía de Guanabara. Aí tomamos uma Bohemia e fizemos o balanço da semana. Conclusão: apesar dos poucos dias, até que aproveitamos bem da cidade. E que bem o Rio fez a nós... Depois, saímos pra bandear pelas ruelas e ladeiras cheias de história, a ver os casarões antiqüíssimos encravados nas encostas mais impossíveis, os sobradinhos sofisticados cobertos de azulejo português, os becos, os largos, as sacadas com vista pra cidade lá embaixo, a floresta continuando lá em cima. Aí, pra refrescar, pausa para um mate gelado numa padaria (quando em Roma, faça o que os romanos fazem) e depois descer no bondinho apinhado e chacoalhante de volta à estação central.
No percurso, consegui convencer os rapazes a ir - tcharaaaam - ao Corcovado. Era meio caro (R$ 30 pra subir), mas poxa, valia a pena. Então, já embaixo dos arcos da Lapa, pegamos um ônibus em direção ao Cosme Velho. É nesse outro bairro alto que fica a Estação Ferroviária do Corcovado, de onde parte um trenzinho em direção ao Cristo. No caminho, passamos por mais bairros tradicionais que a gente não tinha visitado ainda: o charmoso Catete - museu a céu aberto, e VIVO, dos primeiros dias de crescimento urbano do Rio de Janeiro; lá está o Palácio do Catete, onde Vargas (?) meteu uma azeitona quente no coração - além do bairro das Laranjeiras, berço do Fluminense e lar de Cartola. Achei a cara do Chorinho, que é a música urbana do velho Rio, essa região que já elegi como prioridade máxima na próxima visita à cidade.
Chegando na Estação Ferroviária do Corcovado, fomos abordados por um senhor alto de bigode que nos ofereceu uma proposta irrecusável: em vez de pagar os R$ 30 pra subir pelo lento trenzinho, ele nos prometia levar até o Cristo Redentor de van, com direito a parar em dois mirantes e passar pela porta de uma casa onde viveu Machado de Assis e pela mansão de Roberto Marinho (ha!) no percurso, pelo mesmo preço. Achamos justo, topamos e não nos arrependemos. Depois de passar pelo CASTELO dos Marinho, pelo sobrado do Machado de Assis e pelos barracos do morro Dona Marta - segundo nos informou nosso guia, o mais barra-pesada da cidade em termos de tráfico de drogas - as entranhas da Floresta da Tijuca (um lugar de clima delicioso, muito mais ameno que o calor lá de baixo) nos revelaram, a 710 metros de altura, aquela estátua gigante que a gente já conhecia tão bem - e já havia cumprimentado de longe em nossas andanças por diversos pontos da cidade.
É um lugar maravilhoso. Vale a pena pagar um preço salgado e agüentar a turistada para estar ali e apreciar aquela vista. De lá se vê a Gávea, o morro Dois Irmãos, o Leblon, Ipanema, atrás a lagoa, o Jardim Botânico, o Jóquei Clube, aqui à esquerda a Urca, Botafogo, Flamengo, e do outro lado a ponte Rio-Niterói, o centro e a zona norte - do Maracanã, de Vila Isabel, Mangueira e mais um bocado de coisa - os morros ao redor, e o mar sem fim entrando na baía. Você não pode dizer que entende a expressão "de encher os olhos" até subir ao Corcovado. Por que é exatamente o que se sente ali: um deleite visual sem tamanho, que te dá vontade de ter mil olhos pra abarcar tudo. E o Cristo do seu lado, com aqueles braços abertos que dizem estar abençoando e guardando eternamente a cidade, mas que a mim pareciam perguntar: E aí, está de bom tamanho? Caprichei?
Pra completar já era fim de tarde e o sol ia se pôr bem ali atrás de nós, nos morros cheios de antenas que dividem zona norte e zona sul. Era a cereja do bolo, o último beijo naquela moça formosa que tinha nos dado tanto carinho naqueles dias antes de cair na estrada, só pra me lembrar Chico Buarque pela milésima vez: Cidade maravilhosa, És minha... O poente na espinha de tuas montanhas Quase arromba a retina de quem vê... Quando as primeiras luzes do Rio começaram a acender lá embaixo eu fui tomado, de repente como uma ressaca marinha em Copacabana, por uma saudade desgraçada...
Horas mais tarde, enquanto já cruzava a ponte Rio-Niterói o ônibus que nos levaria de volta pra casa, ainda pus a cabeça pra fora da janela e lancei um último olhar ao Cristo lá no alto, iluminado e coroado por uma lua CRESCENTE, quando juro ter ouvido Ele falar pra mim em sua voz monumental e antiqüíssima:
- FIQUE TRANQÜILO, MEU FILHO. VOCÊ VOLTA LOGO.
Abençoado pelo Pai, sorri, encostei a cabeça na poltrona e comecei a refazer em minha cabeça os últimos dias, enquanto assobiava aquele samba de Cartola: Alegria, Era o que faltava em mim, Uma esperança vaga, Eu já encontrei...
*FIM*
17:41
16.9.05
Chão de esmeraldas
(parte 7 de 8)
Na manhã da sexta-feira, o sol carioca finalmente resolveu aparecer com tudo. O céu estava de um azul MASSACRANTE, sem uma nuvem sequer. Gratos àquele presente da natureza, eu, Pinheiro e Everton (que na noite anterior encontramos emputecido pelo cano que a gente deu ao decidir não aparecer na Uerj, mas depois de umas horas bem-dormidas já estava mais calmo), descemos cedo para ir à praia com a delegação paranaense. Passamos a manhã em Ipanema, bem vizinho ao posto 9 - que é o mais concorrido. O bom de ir à praia com gente do sul é que, mesmo que você não faça isso há anos, você não se sente tão desbotado (ganhei um belo tapa fazendo essa piadinha lá).
Depois de tostar a esmo por um tempo, fomos eu, a garota de Arapongas e mais dois amigos dela andar pela areia até o pé do Morro Dois Irmãos. Oficialmente, a idéia era conhecer todos os postos de Ipanema/Leblon, com sua curiosa divisão de públicos (um trecho de praia é dos marombeiros, outro dos maconheiros, outro do público GLS, um outro é reservado às mães com crianças de colo - o "baixo bêbê" - e por aí vai). Mas o que eu queria MESMO era tentar encontrar Chico Buarque, que graças às minhas produtivas leituras de Caras, eu sabia ser um adepto de caminhadas matinais diárias no Leblon. Me preparei psicologicamente para o encontro, anotei na cabeça dois ou três assuntos pra puxar com o filho do Sérgio Buarque de Hollanda, mas o plano acabou frustrado. In-con-so-lá-vel, dei um rápido mergulho no mar (ou a correnteza me levava embora), voltei para o posto 9 com o pessoal e depois fui almoçar com a garota de Arapongas em Copacabana - uma sucessão de eventos insuportavelmente estressantes, como você pode ver, mas à qual eu soube resistir heroicamente.
(Engraçado que apenas 48 horas depois de eu me sentir no paraíso andando ali pelo Leblon, aquilo virou, no domingo, um cenário infernal de briga de gangs rivais, com pedras e paus voando por todos os lados e um princípio de arrastão. Triste.)
Devidamente almoçados e de banhos tomados (à exceção deste suíno, que resolveu passar o dia salgadinho de Ipanema), fomos eu, minha amiga do Paraná, Guilherme, Everton, Deborah e Bruno (o dela) passar o resto de tarde no Jardim Botânico. Lugar incrível, se eu preciso dizer. Uma das primeiríssimas boas coisas que Dom João VI fez ao chegar no Bananão. Lindo, enorme, um mar verde de tranqüilidade cultivada entre o Leblon, a lagoa Rodrigo de Freitas e a floresta da Tijuca. Lugar pra passar um dia inteiro, lendo, namorando, cochilando, fazendo nada. Devia ter um mandamento: "Não irás ao Rio de Janeiro sem visitar o Jardim Botânico".
De lá, fizemos uma escala rápida no albergue e, já no início da noite, tomamos o rumo da Uerj, por que uma CELEBRAÇÃO RELIGIOSA estava reservada para logo mais como festa de encerramento do Intercom: ensaio do G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira, na quadra da escola, encomendado especialmente para a ocasião. E é claro que eu ia.
O morro da Mangueira fica bem em frente ao campus da Uerj, atravessando a avenida Presidente Vargas. Minha idéia era dar uma passada na universidade só pra comprar uns livrinhos e de lá subir o OLIMPO DOS BAMBAS. Mas pra minha surpresa não havia, quando cheguei no lugar, nada além dos restos mortais do que tinha sido um encontro de pesquisa em comunicação. E a desgraça era que a gente - eu e Pinheiro, os únicos de nossa delegação a topar o programa - tinha acabado de perder uma carona pra Mangueira. O que interessa é que depois de atrapalhações e alguma correria, deu tudo certo: chegamos (nós e o pessoal do Paraná) intactos e a tempo à rua Visconde de Niterói nº 1072, quartel-general da verde-e-rosa.
É difícil explicar o que é a quadra da Mangueira. Tem um bocado de canções sobre aquele lugar - e é até um pecado não citar aqui Cartola, por exemplo - mas o que martelava na minha cabeça enquanto eu entrava ali era Chico Buarque:
Me sinto pisando
Um chão de esmeraldas
Quando levo meu coração
À Mangueira
Sob uma chuva de rosas
Meu sangue jorra das veias
E tinge um tapete
Pra ela sambar
É a realeza dos bambas
Que quer se mostrar
A sensação é mesmo de estar entrando num templo-reino. Se você pára pra pensar em quanta beleza aquele lugar já produziu, em quantos mestres e quantas canções eternas já foram geradas naquele útero gigante, não te parecem exageradas a quantidade de refletores de luz, as frases de exaltação escritas em letras enormes em todas as paredes, as colunas douradas marcadas de inscrições que imitam línguas sagradas, etc etc. Mas se ainda assim restar alguma ponta de dúvida em seu coração infiel, espere a bateria da Mangueira entrar na quadra, com pompa e circunstância. Pra descobrir, cercado por uma muralha da China de massa sonora, que não se ouve apenas com os ouvidos, mas com o corpo inteiro, e empreender sua iniciação ritual no mistério do samba. Espere a passista entrar na quadra, ENORME, uma loucura de coxas e glúteos e pélvis e braços coroada de dourado requebrando a ponto de partir-se em mil pedaços (as meninas brancas que tentavam sambar até aquele momento parando, respeitosamente, para apenas olhar o que não vão conseguir aprender). Espere adentrar o casal de mestre-sala e porta-bandeira, os diplomatas da corte, evoluindo elegante e graçosamente sem JAMAIS parar de sorrir. E o puxador, à frente da bateria: Mangueira o teu cenário é uma beleza, Que a natureeeza criooou ô, ôôô... O morro, com seus barracões de zinco, Quando amanhece, que esplendor... Olhe para os pintores, os mestres-de-obra, os camelôs, os tataranetos dos escravos, os filhos e netos dos cearenses, dos manauenses, dos sergipanos, em seus minutos de glória, em sua fantasia de reis, livres e lindos como príncipes africanos. E tente não se emocionar.
15:25
Gostosa, quentinha
(parte 6 de 8)
No day after do Empório, acordei com Everton - que tinha ido dormir bem mais cedo que as minhas 4:30 da manhã e já estava arrumado e cheio de energia e disposição - me sacolejando às SETE E MEIA pra ir ao Intercom. Depois de amaldiçoar até a trigésima-sétima geração de descendentes do bastardo, sugeri que a gente se encontrasse mais tarde na Uerj. Ele foi na frente; eu, Pinheiro e Guilherme ficamos ali por mais algum tempo tentando unir o mínimo de forças necessário para abrir os olhos e se pôr de pé. Por algum milagre inexplicável, estávamos todos prontos pra rua lá pelas 9:30.
Depois de tomar o café da manhã numa padaria da qual viramos sócios, a "Príncipe de Copacabana" (recomendo a promoção salgado + refresco = R$ 1,80), seguimos pelo caminho que nos conduziria ao SABER. Foi quando a afiada percepção e capacidade questionadora deste cabeçudo falou mais alto, assim no idioma sagrado de um MESSIAS:
- Ow, vocês já viram que tá fazendo mais sol hoje? É um desperdício a gente ir pra Uerj se está um tempo tão bom pra caminhar por aí, vocês não acham não?
E os discípulos do mestre aquiesceram, reconhecendo a sapiência de tais ponderações. E foi assim que, de um dia de aporrinhação acadêmica, fez-se um dia de produtiva caminhada.
Partindo de nosso bunker entre os bairros de Copacabana e Ipanema, descemos até a lagoa Rodrigo de Freitas, onde desfrutamos de minutos de contemplação desinteressada e refinamos a nobre arte de apreciar as - if you know what I mean - ESCULTURAS cariocas. A esta altura, já estava bem fluente entre nós um código identificatório de moças que valiam uma conferida de soslaio, sobre o qual não vale a pena tecer aqui maiores comentários. Depois, seguimos até a praia de Ipanema onde, entre outras coisas, confirmamos que o carioca é mesmo um ser obcecado pela forma física que cuida do corpo a QUALQUER hora e que os pombos representam, sem a menor sombra de dúvida, um constante risco à existência daquela cidade: vimos MANADAS hitchcockianas na areia em ATEMORIZANTES nuvens negras, sem contar os que sobem nas mesas, os que atacam vorazmente os sacos de pipoca ou sanduíches nas mãos dos passantes e os que te acompanham vigilantes enquanto você caminha desavisado. Sinistro.
De quebra topamos, veja você, com o mala do Diogo Mainardi (vocês sabem, o jornalista da Veja) passeando de bicicleta - aliás, o terceiro de uma lista de famosos com os quais a gente já havia cruzado até aquele momento, que já incluía o astro-da-novela-das-oito Caco Ciocler (encontrado na entrada de um Irish Pub próximo ao albergue) e o ex-tecladista (e atual baterista) d'O Rappa conhecido como Lobato, visto no metrô. Perdi uma grande oportunidade de assassinar um filho da puta: uma vez que o senhor Mainardi passou a uns trinta centímetros do meu lado esquerdo, um discreto movimento de cotovelo seria suficiente para lançá-lo ao meio da movimentada avenida Vieira Souto, arrematando um crime perfeito. Peço perdão aos brasileiros.
Esticamos até o Arpoador (que, pra quem não conhece, divide Ipanema e Copacabana) e demos um tempo lá em cima das pedras olhando o mar, a praia, os morros ao redor... Sendo engolidos pela beleza do Rio de Janeiro, pra resumir o inresumível. Passei um bom tempo ali, sentado, vendo um grupo de moleques surfar junto à rebentação e sentindo uma profunda, profunda inveja deles. E - admito perante os jurados - cantarolando Garota de Ipanema. Depois almoçamos ali perto e continuamos a peregrinação por TODA Copacabana, até chegar ao Leme.
Copacabana é um lugar estranho, onde, ao que parece, os únicos cidadãos brasileiros que têm permissão para entrar são as garotas de programa que fazem ponto nas imediações dos hotéis de luxo 24 horas por dia. Pombos, gringos e putas convivem pacificamente naquele ecossistema peculiar, mas é raro encontrar um carioca por ali. Estou exagerando, claro. Alguns deles às vezes aparecem nas calçadas e na areia, cheirando cola ou se oferecendo para engraxar seus sapatos.
Quando chegamos ao Leme, entramos por um lugar chamado "caminho dos pescadores", que vem a ser uma espécie de sacada colada ao morro de onde se tem uma vista de toda Copacabana. Já caía a tardinha e começava a chover. Naquele instante, olhando Copacabana sob aquele céu cinzento, eu entendi a bossa nova: é engraçado como o reino da luxúria pode virar, não mais que de repente, o lugar mais melancólico do mundo. Tão desolador aquela beleza toda perdendo as cores e sumindo aos poucos num final de tarde de setembro.
Dali, tomamos o rumo de volta pro albergue, já colecionando calos nos pés No caminho, não resistimos a uma parada num lugar chamado "Taverna do Leme", na esquina das avenidas Nossa Senhora de Copacabana e Princesa Isabel, para uma providencial relaxada. Sábia decisão: foi o melhor ponto de passagem de mulheres maravilhosas que visitamos em toda a viagem. Depois, ainda visitamos uma loja de discos em Copacabana (não qualquer loja, a Modern Sound) e nos perdemos nas proximidades do túnel Rebouças. Estranhei a reação das pessoas que abordei pedindo informação por ali: todas eram monossilábicas, apressadas, arredias, padrão incomum no Rio. Só depois viria saber que, na tarde anterior, uma quadrilha que comanda um dos morros da região havia fechado o túnel e pilhado geral lá dentro. Medo.
Depois de tomar o café na "Príncipe de Copacabana", chegamos ao albergue decididos a não ir mais a lugar ALGUM naquela quinta-feira. Tudo que os bravos caminhantes desejavam era descanso. Por sorte, encontramos no hall de entrada do "Colinas" o pessoal do Paraná, no mesmo clima de fiquemos-por-aqui-mesmo-esta-noite, e decidimos interagir. Compramos uma garrafa de vodca - ah, a língua universal - e enredamos num intercâmbio com os muito simpáticos paranaenses noite adentro. Estava tão bom que acabamos esticando num barzinho tradicional de Ipanema (o "Vinícius", na rua Vinícius de Moraes) e, depois de expulsos do lugar, na própria areia da praia. Com uma garota de Arapongas que estuda em Ponta Grossa, meu intercâmbio foi especialmente intenso e divertido. Mas essas coisas não se conta.
02:02
15.9.05
O dia D
(parte 5 de 8)
Quarta-feira, 7 de setembro, era o grande dia: às 14 horas, numa salinha do 7º andar (bloco F) da Uerj, eu ia finalmente apresentar meu artigo no Intercom. Andava meio nervoso na segunda e na terça, pensando sobre isso. A questão é que, como eu falei, eu não tinha preparado NADA pra falar. E toda vez que alguém me fazia a pergunta fatal "sobre o que é o seu trabalho?" me batia um frio na espinha. Eu sabia sobre o que era, claro, mas explicar me dava medo. Não estava seguro de que saberia ser didático o suficiente, de que teria a manha de tornar o tema tão interessante para os outros como ele é pra mim (meu trabalho era sobre jornalismo literário, antes que você me pergunte).
No "dia D", porém, acordei tranqüilo. A conferência de abertura, na noite passada - que incluiu uma inspiradora palestra do Muniz Sodré - tinha multiplicado minhas sinapses cerebrais, me deixado cheio de boas palavras para explicar o artigo e mais confiante do que nunca de que meu tema era pertinente. Tinha uma mesa temática que eu queria assistir pela manhã, mas acabei chegando atrasado na Uerj, por volta das 11 horas, e resolvi desencanar. Tomei o café da manhã numa cantina por lá e fiquei rodando pelo evento, vendo aquele povo do País todo (aquelas MULHERES do País todo), olhando uns livrinhos nos stands pra comprar depois. Num instante já era hora do almoço, então comi no campus de novo e comecei a me concentrar pra falar na mesa 22 da Sessão de Temas Livres - "Enfoques Teóricos" - onde tinham me colocado.
Demorei um bocado pra encontrar a sala. A Uerj é um lugar HORRÍVEL de andar. Arquitetura arrojada, linhas futuristas, indiscutível originalidade na divisão dos espaços, funcionalidade zero. Acabei me atrasando um pouco, o que consumiu boa parte da minha tranqüilidade. Pra completar, a (des)organização do congresso divulgou três locais diferentes para a sessão que eu ia participar. Tive que empregar de todo meu talento mediúnico-astrológico pra descobrir em qual deles o evento ia de fato acontecer.
Felizmente, encontrei a sala a tempo: fui o segundo a chegar. A única pessoa que já estava lá era uma moça chamada Flora Daemon, que também ia apresentar trabalho ali e eu já tinha conhecido pelo orkut. Bater papo com ela - uma ruiva paulista adotada pelo Rio de Janeiro, muito inteligente, muito simpática e anda mais bonita ao vivo - me fez relaxar de novo. Pra completar, a coordenadora da mesa, uma moça da ECA-USP chamada Denise Casatti (MUITO gente-fina - eu tive uma sorte danada pra isso nessa viagem) fez de antemão elogios ao meu artigo que, sozinhos, já teriam valido a minha ida até ali. Mais tarde, pra arrematar, meus amigos Bruno Pinheiro e Ian Moreira ainda apareceriam por lá pra me dar aquele apoio moral. Era praticamente jogar em casa.
Mas, a despeito de toda esta conjunção positiva de fatores, achei minha apresentação no máximo razoável. Não tive muito problema pra falar: a maioria do pessoal que estava na sala - umas vinte pessoas - conhecia e tinha interesse pelo tema, o que facilitou meu trabalho. Mas tive a sensação de que poderia ter falado MUITO melhor. De qualquer forma, o debate com o pessoal depois foi animador e fiz contatos legais. No fim das contas, saldo altamente positivo.
Concluída a missão, já no começo da noite, fomos todos lanchar numa cantina da Uerj e depois conferir a entrega dos prêmios do Expocom, evento de exposição de trabalhos dentro do Intercom onde Ian estava concorrendo na categoria "ensaio fotográfico". Adivinhe quem ganhou o primeiro lugar? Enchendo a pequena mas brava delegação sergipana de orgulho, meu irmão fotojornalista levou a honraria pra casa e ainda vai concorrer a um prêmio internacional na Bolívia. "Eu já sabia".
Por essas horas, encontramos por lá o onipresente Hilton Barbosa, que por acaso estava no Rio a passeio e resolveu dar um pulo no Intercom pra encontrar os camaradas. Estava na casa de um amigo em Botafogo, a quem aproveitamos para pedir umas dicas de lugares interessantes na noite carioca. Depois de uma conexão no albergue, seguimos - eu, Pinheiro, Guilherme, Hilton e o amigo dele - para um "pico" a umas poucas quadras dali, entre a praia de Ipanema e a lagoa Rodrigo de Freitas, chamado Empório.
O lugar era sensacional. Algo assim entre um pub e um dancing bar: pequeno, interior todo em madeira escura, teto baixo, decoração simples oscilando em temas vintage. Nos fundos, uma cabine de DJ e um vão de uns cinco metros quadrados fazendo as vezes de uma pista de dança. Afixada no balcão estilo taverna, uma bonita placa prateada alertava, em letras garrafais: HANDS OFF OUR BARMAIDS. Na verdade, só havia uma garçonete no recinto, mas ela valia bem o aviso. A cada chopp, tornava-se mais difícil resistir àquela deusa viking de barriguinha de fora e simpatia gratuita, certamente encomendada em algum recanto obscuro dos infernos para fazer nossas carteiras esvaziarem sem que a gente sentisse. Funcionou: passamos a madrugada ali, contemplando o balé da filha de Lúcifer entre as mesas, achando graça nos gringos que aproveitavam a estadia na capital dos trópicos para libertar sua luxúria (vi uma americana beijar três negrões sorridentes, um atrás do outro, enquanto dançava insandecida), e, claro, bebendo como caminhoneiros. Até arriscamos a pista de dança. Fontes Times New Roman garantem ter me flagrado em pleno SWING MAROTO ao som de Groove is in the heart. Não sei de nada. Apenas que fui dormir feliz e muito tarde esse dia.
15:06
Chuva, muambas e luxo
(parte 4 de 8)
Acordamos meio tarde na terça, por volta das onze horas. O tempo, que estava meio nublado na segunda, tinha fechado de vez. A informação era a de que uma frente fria da Argentina tinha acabado de chegar ao Rio. E eu não estava achando graça nenhuma naquela chuvinha vagabunda com sotaque portenho. Decidimos ir ao centro. Não lembro de quem foi a idéia, mas sei que pegamos um metrô e fomos todos ao complexo Rua da Alfândega-Saara, que é o equivalente carioca da Santa Efigênia-25 de março: um amontoado de lojas que vendem artigos baratos de procedência duvidosa.
Depois de uma hora rodando por ali, eu, Pinheiro e Guilherme enchemos o saco e fomos espairecer por outras ruas da região. Sob uma chuvinha fraca mas intermitente, visitamos a praça da República, o museu do Itamaraty (o que deu pra visitar dele), fomos abordados por um mendigo louco que nos perseguiu berrando que PRECISAVA conversar com algum homem (eu tenho uma sorte danada pra essas coisas) e, depois de encontrar com o resto do pessoal, descemos pelas ruas cheias de história do velho centro, como a rua do Ouvidor, a rua Gonçalves Dias e tantas outras. Não vou esquecer nunca daqueles prédios antiqüíssimos, finos, tão bem construídos e cheios de detalhes, ali no meio daquela confusão infecta de baixo-comércio, como Nadjas Comanecis trabalhando de garçonetes de boteco, eternamente.
Uns poucos minutos de caminhada e chegamos ao destino que eu tinha sugerido: a famosíssima Confeitaria Colombo, bastião dos anos de ouro do Rio de Janeiro, tradicional esconderijo de intelectuais e artistas, cenário de concorridos almoços oferecidos a presidentes da República, etc etc. Sem pensar duas vezes: o lugar mais charmoso em que eu já estive nessa vida. Espelhos enormes (belgas, segundo me informaram) espalhados por todos os cantos, móveis das melhores e lustradíssmas madeiras, vitrines cheias de artefatos antigos, vitrais cheios de detalhes coloridos, tudo lá, igualzinho, desde 1894. Coisa finíssima, de ficar assim até meio envergonhado de entrar. Mas entramos. Pedi, só pra conferir a fama da casa, um pastelzinho de Belém e uma tortinha de maçã. Caríssimos, mas quem se importa? Na mesinha do nosso lado, um senhor cantarolava baixinho e escrevia notas musicais num guardanapo, enquanto tomava um chá. Aquela canção vai ser um sucesso. Sassaricando e boa parte da memória da música popular brasileira foram compostas na Confeitaria Colombo. Que lugar.
Quando a gente saiu da Colombo, finzinho de tarde, a chuva tinha dado uma trégua. Aproveitamos pra apertar o passo até a estação de metrô Uruguaiana. A idéia era voltar pro albergue, vestir uma roupa mais quente e ir à Uerj assistir a conferência de abertura do Intercom, marcada para as 19hs. Enquanto íamos cruzando os camelódromos da região, dois clichês onipresentes: funk tosco no talo e carinhas distribuindo panfletos de propaganda de casas de tolerância. "R$ 10 por 15 minutos de relax", oferecia um deles. Sair da Confeitaria Colombo e atravessar a baixaria dos camelódromos me ensinou mais sobre o que é o Rio de Janeiro do que qualquer compêndio de antropologia poderia.
Depois de ver a abertura do Intercom, que finalmente me ambientou no evento (eu apresentaria meu trabalho no dia seguinte e ainda não fazia idéia do que ia falar, que tipo de público ia encontrar, absolutamente nada), fomos tomar umas num barzinho de Copacabana. Passamos horas vasculhando um guia turístico e debatendo sobre a melhor opção, pra acabar sentando no primeiro boteco que a gente viu pela frente, bem perto da praia (de frente pra praia mesmo, só gringo bebe). Enquanto a gente tomava uns chopps, acabei encontrando no guia uma opção imbatível: um boteco a duas quadras de onde a gente estava que prometia samba e chorinho ao vivo com a eventual canja de músicos de renome. Corremos pra lá, mas apesar de ser só por volta da meia noite, chegamos tarde demais: de longe já dava pra ver uns senhores grisalhos deixando o recinto com violas, contrabaixos, cavaquinhos, bandolins e pandeiros debaixo do braço. Mesmo assim dei uma entrada na minúscula bodega, que já começava a fechar, só pra conferir o clima. Nas paredes cobertas de fotos, o senhor de boina, barba e bigode atrás do balcão posava sorrindo ao lado de gente como Aldir Blanc, Tom Jobim, Dorival Caymmi e Beth Carvalho. Fazer o quê?
01:58
Galo em terreiro alheio
(parte 3 de 8)
- Eu sabia que era tudo invenção da Globo! Cadêêêê?! Até agora não vi nenhuma bala perdida e nenhuma mulata sambando na rua!
Foi ouvindo um indignado Manoel que eu terminei de acordar, já depois de ter atravessado a Rio-Niterói inteira com a cabeça encostada no vidro, zumbizando enquanto contemplava a enormidade da baía de Guanabara. Entrando pela zona portuária, descemos pelo centro e depois zona norte até chegar ao Maracanã. O destino era a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ali vizinho ao Estádio Mário Filho, onde ia rolar o XXV Congresso da Sociedade de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - baita nome chique, fala a verdade. A gente precisava fazer o credenciamento, tomar café e arrumar uma vaga pra deixar nosso ônibus guardado ali dentro do campus. Esta última missão - a principal, talvez - não conseguimos completar. Ficamos de voltar à tarde pra resolver o pepino e zarpamos (eu, Pinheiro, Everton, Guilherme e Deborah) rumo ao albergue. Não sem antes topar com nosso chapa Ian Moreira, que passeava por ali com seu pai, preparando-se para mostrar a estudantes e pesquisadores de todo o País seu talento no fotojornalismo. Grande Ian.
Foi complicado encontrar o albergue. Pegamos um metrô sem dificuldade, bem em frente à Uerj, e depois um providencial ônibus do próprio metrô que nos deixou na praça General Osório, em Ipanema. Mas esta era a única referência que a gente tinha. Foram necessárias diversas consultas a transeuntes, guardas e até ligações a Aracaju para que os cinco viajantes destrambelhados finalmente conseguissem encontrar o caminho tortuoso que levaria à rua Saint Roman, nosso esconderijo entre Ipanema e Copacabana para os dias que estavam por vir.
O albergue Colinas de Copacabana, na verdade, não tinha muita cara de albergue. Era assim um predinho de quatro andares bem arrumadinho por fora, no pé do morro do Cantagalo. Como veríamos depois, bem arrumadinho por dentro também. Mas sem aquele clima aconchegante de albergue. Mais tarde o gerente do local nos explicaria que o Colinas era uma espécie de "flat econômico" que tinha começado a funcionar também como albergue, no quarto andar, há pouco tempo. Em outras palavras: um flat ultra-econômico de temporada pra gente disposta a ficar apinhada num mesmo quarto, inclusive com gente desconhecida. Um depósito de mochileiros.
Da parte de ficar junto com gente desconhecida a gente achava que ia escapar. Seis pessoas seriam suficientes para fechar um quarto, ou pelo menos era o que a gente acreditava. Acabamos sendo despachados para um apartamentozinho onde já se encontrava instalado um casal do Tocantins. Eles não estavam no local quando a gente chegou, mas o mesmo não se aplica às roupas espalhadas pelas camas e ao clima de lua-de-mel. Mesmo mortos de vontade de conhecer o bom povo do norte e de conferir a cara sem-graça do casal ao chegar da rua e encontrar seis empata-fodas instalados em seu ninho de amor, clamamos à recepção por um quarto para seis, no que, depois de alguma insistência, acabamos sendo atendidos.
Resolvidas as questões de caráter LOGÍSTICO, saímos para almoçar. Depois, bandear por Copacabana. O clima estava ameno: meio nublado, mas quentinho. Caminhamos um bocado pela areia, até quase chegar ao Leme, que é o final de Copacabana. Gringos, gringos, gringos, pombos, ripongas puxando fumo, marombeiros, mulheres gostosas, mais gringos, mais pombos... E aí já era hora de voltar à Uerj para resolver a questão do ônibus. Cruzamos a cidade pra fazer isso, mas o maldito motorista que acompanhava o Michael Moore (que a essa altura já tinha debandado pra Macaé), tinha sumido com o veículo. Voltamos pra Copacabana de metrô, razoavelmente putos, e fomos tomar umas cervejas num pé-sujo chamado "Pé Quente", quase na esquina do albergue. Deu pra relaxar. Mesinha na calçada, tira-gosto, cervejinha gelada e um cardápio inteiro de mocinhas de Copacabana e Ipanema passando pra lá e pra cá. Ô vida besta, meu Deus.
Depois foi voltar pro albergue, o clima já meio frio, e sentar no hall da entrada pra tomar um resto de vinho barato que Pinheiro tinha na mochila. Foi aí que acabamos conhecendo um casal do Paraná que tinha acabado de chegar, gente finíssima. Paula e Luciano - ou "perereca". Nosso amigo perereca já tinha morado em um monte de lugares do Brasil, inclusive Aracaju, e conhecia recantos de nossa cidade que a gente nem suspeitava. Paula só ria das histórias sensacionais que ele contava. Um grande casal. Tinham chegado junto com um grupo inteiro, tudo estudante de jornalismo da UEPG - Universidade Estadual de Ponta Grossa. Isso ia dar muito pano pra manga dias depois... Mas naquele momento, tudo que me interessava era que eu estava pregado de sono. Ao soar das três da manhã, fui dormir.
00:35
14.9.05
The Magical Mistery Tour is dying to take you away
(parte 2 de 8)
O Rio de Janeiro começou a me raptar, pra ser mais preciso, nos primeiros minutos do dia 4 de setembro de 2005, o domingo. Foi pouco depois da meia-noite que o simples mas muito digno ônibus arranjado pelo conde Guilherme Borba Gouy, um carioca de ascendência franco-afro-brasileira (rá!) criado em Aracaju, partiu da capital sergipana com destino à cidade maravilhosa cheia de encantos mil.
Já nos primeiros momentos, a viagem se anunciava como experiência INDELÉVEL. É que eu fazia idéia, mas só quando vi todo mundo junto no ônibus me dei conta de que bom grupo eu estava acompanhado. Ficaríamos hospedados num mesmo albergue em Copacabana eu, meus velhos chapas Bruno Pinheiro e Everton Mesquita, Guilherme Gouy e Deborah "Metal" Fernandes - um outro Bruno a encontraria no Rio e se somaria a nós. Mas tinha mais gente de safra finíssima entre as pessoas com quem eu dividiria as previstas 30 horas de viagem até a terra de Tom e Vinícius, entre elas Raphael Nascimento e sua senhora, Iolanda Martelotti, o impagável Anderson "RÁ!" Bruno e, por último mas não menos importante, o homem que nos abasteceria de, err, diversão durante toda a viagem, o professor Manoel Henrique Jr.
No percurso, entre cervejas, bate-papos, sessões coletivas de cantoria nostálgica e zoneações diversas no fundão da marinete, sempre envoltas por uma neblina amarelada que insistia em nos acompanhar estrada adentro, outros personagens acabaram entrando na roda e engrossando o caldo, fator pre-pon-de-ran-te para que a viagem passasse num estalo de dedos. Sem falar nos disquinhos de rock & roll rolando direto no sistema de som interno do busão - cortesia de um dos simpáticos motoristas que nos acompanhava E dono do veículo, um sujeito pançudo, cabeludo, de dentes gastos, barba por fazer e boné velho, que rapidamente batizamos com a adequada alcunha de MICHAEL MOORE.
Assim cortamos a Bahia a leste-oeste (ou seria norte-sul?), descemos o Espírito Santo e finalmente penetramos no velho Estado da Guanabara. Bem. Confesso que depois de uma tarde INTEIRA de domingo vendo nada além de eucaliptos cultivados para papel e celulose dos dois lados da estrada, ao que se seguiu uma pocket-rave noturna embalada a Chemical Brothers, vinho barato, ganja e luzinhas de leitura piscando (on-off-on-off-on-off...), capotei pouco depois de entrar no Espírito Santo e só acordei (ou fui acordado) às 5:40 da matina, já sobre a ponte Rio-Niterói.
14:13
MEDO E DELÍRIO NO RIO DE JANEIRO
Preâmbulo
(parte 1 de 8)
A idéia surgiu ali por maio/junho. Depois de defender a monografia e me formar, vieram as ganas de começar a engatilhar um mestrado, e uns professores e amigos me lembraram da importância de publicar uns artigos científicos por aí se quisesse mesmo atingir o intento. Beleza, então vamos ao Intercom, também conhecido como o maior congresso brazuca de pesquisa em comunicação.
Que por acaso ia ser no Rio de Janeiro - nem estava ligando muito pra esse fator. Na verdade, isso só ocupava minha cabeça como preocupação. Tipo: "Que chato, Rio de Janeiro. Por que não podia ser num lugar mais seguro, mais organizado - um lugar onde eu me sentisse mais à vontade? Eu, que ando com tão pouco ânimo e paciência. Eu, que não consigo digerir lá muito bem o jeito carioca e estou sempre a um passo de me aborrecer com ele e repeli-lo. Aquela libidinagem agressiva, aquele caráter duvidoso, aquele humor zombeteiro, aquela falta de integridade, fineza e boa educação... Que grande risco de gastar dinheiro suado só pra perder a paciência em terras estranhas".
Com o tempo consegui me desarmar um pouco e comecei a gostar mais da idéia. "Bah, tem tanta coisa que você gosta no Rio. Não seja um chato. A cidade é linda, e da última vez que você foi lá (fevereiro de 2001, Rock in Rio), mal pôde conhecê-la. Tanta coisa que te seduz irresistivelmente ali. Boemia, samba, as cariocas, o charme tropical em profusão, aquele tantão de história num lugar só. E quanto ao jeito carioca, não seja um colecionador orgulhoso de lustrosas idéias preconcebidas: você não desgosta dele de todo. Talvez você precise interpretá-lo, saboreá-lo vagarosamente, sorvê-lo, compreendê-lo melhor. Vamos, vamos ao Rio de Janeiro".
No meio do caminho, alguns amigos foram se somando à aventura, de maneira que na reta final eu já estava irresistivelmente animado. E foi com esse espírito que cheguei ao dia da viagem: sábado, 3 de setembro de 2005.
01:14
Prato do dia: Relato insano à moda Jack the Ripper
Vamos assim então: por partes. Em 24 horas eu devo publicar tudo.
01:12
13.9.05
Promessa é dívida
Então, cheguei da cidade maravilhosa na madrugada de ontem e não esqueci do relato prometido aí embaixo. Está sendo meio complicado, confesso, conciliar o inevitável processo de volta-à-realidade-cruel e toda a reorganização logístico-espiritual-whatever que ele exige com a confecção de um texto à altura do que essa viagem merece. Mas não entendam isso como uma CAPITULAÇÃO: assim que eu conseguir sentar a bunda nesta cadeira desconfortável com o tempo certo e a cabeça minimamente tranqüila e concentrada, o relato sai. Ah, sai.
12:49
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